sábado, 28 de maio de 2011

A trajetória do herói

“Quando somos crianças a presença de heróis é uma constante em nossas vidas. Nessa fase nossa imaginação é muito fértil e nos permitimos ser quem queremos. O herói é uma representação da grandiosidade do potencial humano, no fundo sabemos que podemos ser muito mais do que aquilo que estamos manifestando no momento. Nosso inconsciente sabe que possuímos potencialidades que estão latentes e que se não forem trabalhadas, com o tempo serão atrofiadas e desaparecerão. Ele envia mensagens de admiração por aqueles que realizaram grandes feitos, querendo nos dizer que também podemos fazer tudo isso, basta que lutemos. (...) Para Joseph Campbell, um dos maiores estudiosos de mitos e lendas da história, existe dois tipos de mitos: aqueles que realizam proezas físicas, como salvar a vida de uma pessoa, fazer uma grande travessia, etc. e aqueles que atingem um estado superior de consciência e depois se determinam a ensinar outras pessoas uma mensagem. (...) Os heróis estão por aí, às vezes mais próximos do que imaginamos.” 


O herói está dentro de você... 


Prezado(a) navegante,



Nossa vida é um fluxo, como diria Heráclito. Estamos sempre a caminhar, chegando e partindo, aprendendo e ensinando, muitas vezes sem perceber. A jornada do herói se faz ao caminhar e o triunfo advém necessariamente do esforço empreendido para desfrutar a sabedoria do caminho, de saber triunfar sobre a derrota e a vitória. Contudo, o herói superior é aquele que volta para “a sua morada” e se propõe a ensinar os outros o caminho. Muitos se esquecem dos outros quando triunfam, mas estes não são heróis. Muitos ficam cegos pela ilusória luz da vaidade e se esquecem que o conhecimento deve ser semeado, mas estes não são heróis. Heróis são aqueles que amam semear, você é ou quer ser um semeador? É preciso para isto conhecer melhor a semente, para que possa manejá-la com segurança. Será que você fez isso conscientemente ao longo da trajetória de sua vida?


Physis: para quem quer viajar...

Esse é um convite para aquelas pessoas que amam viajar, para aquelas que sonham e procuram realizar seus sonhos. Você é uma dessas, por isso esse singelo convite chegou a suas mãos. Ele é único e intransferível, um passaporte pessoal para desvendar segredos incríveis, segredos que devem ser desvendados em prol da humanidade e de Gaia.

Psiu, você gosta de viajar? As pessoas têm preferências por diferentes tipos de coisas e assuntos: umas gostam de passear, outras curtem observar os astros ou os animais. Contudo, existem coisas e questões que deveriam interessar a todos como, por exemplo, viajar, refletir sobre quem somos e de onde viemos, porque as coisas são como são, porque existem desigualdades sociais, exclusão, fome ou sobre os elementos responsáveis pelas distintas configurações do mundo em que vivemos. Você crê que essas questões são importantes? Você sabia que essas e muitas outras têm sido pensadas e discutidas há muito tempo e as explanações para elas variam de acordo com o contexto histórico?

Os filósofos buscam verdades e por mais difícil que seja encontrá-las nunca devemos desistir ou pensar que não existam. Hoje em dia também devemos procurar nossas respostas e é importante conhecermos o que foi dito em outras épocas para que possamos formar uma opinião própria. O combustível especial para viajar através de segredos incríveis está dentro de você, trata-se do desejo de viajar, de sonhar em habitar as estrelas, de admirar-se com o mundo, de procurar respostas e soluções para as distintas (re)configurações do espaço em que vivemos. Admirar-se com o mundo é o princípio para ser um filosofante, isto quer dizer que para ser um bom navegador das estrelas é preciso ser, antes de tudo, um filósofo, ou seja, aquele que se admira constantemente com as coisas.

Psiu, você realmente quer viajar? Physis é para quem quer viajar, para quem sonha e quer realizar seus sonhos, mas tudo começa em um ponto dentro de você...




sexta-feira, 27 de maio de 2011

O Pálido Ponto Azul

Para refletir...

A Pedra Filosofal

Não precisamos nem mesmo nos arriscar sozinhos na aventura, pois os heróis de todos os tempos já foram à nossa frente. O labirinto é bem conhecido só temos que seguir os passos do herói. E onde pensávamos encontrar algo abominável encontramos um deus. E onde pensávamos que teríamos de matar alguém teremos de matar a nós mesmos. E quando pensávamos viajar para fora chegaremos bem no centro da nossa própria existência. E onde pensávamos estar sozinhos, estaremos em companhia do mundo inteiro (CAMPBELL, 2005).

Fábio Carvalho Nunes

O conhecimento nasce do espanto, ou seja, quando o ser humano se assombra com o mundo e indaga sobre a realidade. Platão já dizia que a filosofia nasce do assombro (MAGAEE, 2001), os mitos também irrompiam da perplexidade, dos esforços engenhosos do homem primitivo para explicar o mundo ameaçador e desconcertante à sua volta[1] (FREUND, 2008). A mitologia grega é reveladora a este respeito, como nos ensina Unger (2000), ela nos diz que Íris (a mensageira dos deuses), aquela que faz a ponte entre o homem e sua transcendência, é filha de Thaumas, o espanto. Tanto Platão quanto Aristóteles se reportam a este mito para dizer que o espanto é arché, princípio de criação, de conhecimento. O espanto, a perplexidade permite a irrupção do sagrado, por isso é fonte de criação, porque é uma força desorganizadora, subversiva, titânica (UNGER, 2000). A ciência é filha da tradição sagrada e profana do ato de perguntar, linhagem de Thaumas.  

O princípio fundamental da ciência é a pergunta, o levantamento de uma questão norteia uma série de procedimentos considerados racionalmente adequados para respondê-la. Quando pergunta o cientista é comovido pela mesma inquietação de seus ancestrais: respondê-la. Para responder as questões formuladas o ser humano realiza uma viagem através de seu corpo e mente fazendo emergir intuições e pensamentos, os quais nortearam caminhos a seguir.   

O homem moderno ou pós-moderno inicialmente realiza a mesma viagem que seus ancestrais na busca pelo conhecimento, só que os caminhos para adquirir as respostas são diferentes. O resultado é elaborado e apresentado de diferentes maneiras, contudo sempre através de uma história, de uma narrativa, que pode ser mais ou menos convincente, mas sempre uma história. Por isso, todo cientista é um contador de histórias, elo profundo com as raízes do saber primevo, mesmo que não se dê conta ou procure esconder.

Todo cientista tem um quê de criador de mitos, às vezes no anseio de sacralizar o seu estudo ou algo que ajudou a desvendar. Muitas histórias foram criadas ao longo da trajetória científica, algumas embriagantes, alucinógenas. Talvez a mais embriagante, a capaz de causar as maiores alucinações, diz que a ciência é a única forma plausível de aproximação da realidade, ou pior, que é a única maneira de se alcançar a “verdade”.

Felizmente, “a verdade científica” é provisória e nesse aspecto é também muito similar ao mito. Se a hipótese de Laplace para explicar a origem da Terra e do Sistema Solar não é mais válida, sob que aspectos, como indaga Freund (2008), as teorias outrora cientificamente aceitas são diferentes dos mitos? Felizmente estão despertando desse acorde entorpecente.

Tem-se observado nos últimos anos vários movimentos que estão (re)aproximando ciência, filosofia, arte e religião, fazendo emergir um momento importante para grandes inovações e construções significativas em todos os âmbitos da sociedade. Talvez esse momento oportuno possa ajudar o ser humano a perceber, de fato, que deve preferir o diálogo, respeitar os diversos olhares, escutar os diferentes saberes. Ver através de outras lentes amplia as fronteiras de nossa percepção, de nosso entendimento do mundo, do outro e de nós mesmos. Ampliamos nossa cultura e a visão do real se expande, permitindo que novos paradigmas se instalem (NUNES, 2009).

O diálogo entre os diferentes saberes poderá conduzir a humanidade a um conhecimento singular e mais profícuo da realidade, o que (re)significará a sua existência, possibilitando a construção de relações mais íntimas com o mundo. Como, por exemplo, construir condomínios, praças, escolas, cidades, leis mais justas, mais condizentes com a sociedade se não valorizam os diferentes saberes, se não oportunizam o diálogo, se não consideram a visão e a percepção de mundo dos concidadãos? 

O diálogo entre os saberes poderá conduzir à pedra filosofal, capaz de realizar uma profunda transformação no ser humano. Mas o que é a pedra filosofal? A palavra pedra advém do grego “pétra”, que pode significar superfície rígida que dá suporte. Pedra filosofal pode ser entendida como a “base de um saber notável” ou da sabedoria e que em árabe se diz “al kimia” – a alquímica representaria, por isso, um saber extraordinário, capaz de realizar transmutações. Mas qual a verdadeira força capaz de transformar o indivíduo? De onde pode emergir? Certamente das profundezas de seu interior, através do autoconhecimento.

O autoconhecimento e sua busca alicerçam a humanidade, significam a existência, sinalizam a jornada e apontam para a transcendência, porque amam o conhecimento e tecem teias, redes que apuram sentidos. A verdadeira pedra filosofal está dentro de cada homem ou mulher, por isso o “conhece-te a ti mesmo” é tão profundo, universal, fundamental para a transcendência.  

A busca pelo autoconhecimento é uma das estratégias mais fascinantes e importantes desenvolvidas por nossa espécie e, certamente, conduzir-nos-á a um novo patamar de consciência e de convivência universal. Por isso nossos ancestrais, íntimos conhecedores da alma humana, valorizavam nos mitos histórias que conduziam à reflexão sobre os princípios, valores, sobre a relação com a casa (interior e exterior). 

O ser humano é a natureza tomando consciência de si mesma, como dizia o geógrafo francês Eliseé Reclus, e como natureza é “doce ou atroz”, “manso ou feroz” e caçador de si mesmo. Ás vezes eu penso na Terra como uma escola e no ser humano como seu maior aprendiz. Como todo grande discípulo, questiona o que lhe foi ensinado, acerta e erra tudo ao mesmo tempo, mas o incrível, o incrível é perceber que no caminho ele aprende, aprende inclusive a amar a sua inconstância. Assim, a natureza da qual pertence, vai tomando consciência de si mesma, por isso, eu acredito no futuro, porque acredito na Natureza, que transforma água em vinho, sol em chuva, pedra em ouro, surtos em elixir de longa vida.

REFERÊNCIAS

CAMPBELL, J. O Poder do Mito. São Paulo: Palas Athena, 1a edição. 1990. 242p.
CAMPBELL, J. A saga do herói. In: O Poder do Mito. DVD, Estúdio Log On/Culturamarcas, São Paulo, 1a edição. 2005.
FREUND, P. Mitos da criação: as origens do universo nas religiões, na mitologia, na psicologia e na ciência. São Paulo, Editora Cultrix, 2008. 248p.
MAGAEE, B. História da Filosofia. São Paulo, Edições Loyola, 3a edição. 2001. 240p.
NUNES, F. C. Um espaço para a solidariedade: reflexões a partir do livro Ensaio sobre a cegueira. Revista Garrafa (PPGL/UFRJ). , v.19, p.1 - 10, 2009.
UNGER, N. M. O encantamento do humano: Ecologia e espiritualidade. Edições Loyola, São Paulo, Brasil. 2ª edição, 2000. 94p.



[1] Os mitos ainda habitam o cotidiano da humanidade, essa forma criativa de explicar a realidade emerge em todos os âmbitos, nas ruas, nas igrejas, nas escolas, na Academia. Como nos ensina Joseph Campbell (1990), a mitologia é a canção do universo, a música das esferas, música que nós dançamos mesmo quando não somos capazes de reconhecer a melodia.